Acossado

Tem muito filme que é considerado bom por conter cenas ou diálogos inesquecíveis. Alguns clássicos tem disso. Assisti Acossado e me dei conta disso. Edição maluca, diálogos malucos, personagens malucos. Foi um filme que me pareceu mais lúcido um dia depois que o assisti, por isso gostei. Terá repeteco logo mais.

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Conversa com mamãe

-Filho, deixa essas fotos na pasta de imagens.
-Já está na pasta de imagens.
-Mas eu queria na pasta imagens, dentro da meus documentos.
-Já está.
-Não está.
-…
-…
-Mãe, olha aqui. Meus documentos, imagens. Ó as fotos aqui. Dentro da pasta imagens eu guardei todas as IMAGENS. Não tem vídeo, não tem música, não tem pps falando do amor à vida. Tem i-ma-gens.
-Mas eu queria na pasta imagens.


Desisti e fui tomar banho

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elastique:

Buena Vista

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Histórias de 13 Anos


Sempre que chovia ele se lembrava da mãe de um amigo que fora, outrora, o melhor de todos. O amigo era de poucas palavras, mas de sentimentos justos e honestos. Não mentia e cativava. Sua mãe pareceu gostar tanto dos amigos dele quanto do próprio, e por isso dizia que todos eram seus filhos. Na época, sobrava tempo e isso propiciava encontros constantes e longas discussões noite adentro com todos.


Certo dia, na casa de praia, choveu. E choveu muito. Enquanto ele estava sentado numa cadeira de madeira, no sexto andar do conjunto de apartamentos à beira-mar, viu a dança que as águas faziam ao vento, no reflexo da luz amarelada do poste. Tal fato o entretinha bastante e o fazia elocubrar sobre todas as coisas do mundo ou as que ele conhecia e, inocentemente, afirmava dominar. Era uma ilusão consciente, pois no fundo somente dominava sua própria ignorância, salvo as devidas proporções. Navegando em seu limitado conhecimento e na vastidão dos seus sonhos, perguntou-se porque naquele lugar somente ele enxergava beleza em algo tão simples. Onde estava a estranheza de ser estranho. Não encontrou respostas, mas encontrou a mãe de seu amigo, que veio ao seu encontro

- Olá! Só você acha isso bonito pra estar olhando assim?

Ele parou e não sabia o que responder. Surpreendeu-se com a perspicácia da mulher, e respondeu que sequer sabia porque fazia aquilo, quanto mais entender que poderia ser bonito…

O único contato franco foi este. A pergunta que mais queria escutar de alguém que não esperava nada. O início de um debate que ele desejava mas foi abortado por barulhos e desconcertos do ambiente. Nunca mais chegaram a tentar conversar novamente. A mãe do amigo se afastou de todos por causa do divórcio e hoje eles se cumprimentam com um nítido desconforto.


O discernimento veio com o tempo, e junto vieram os problemas. Sentiu saudades de si mesmo pela primeira vez, e foi num momento de ódio. Sentiu saudade do tempo em que a chuva era o bastante para ele esquecer que era um qualquer, esquecer que havia responsabilidades, esquecer todas as pessoas que prejudicou e ajudou, esquecer que possuía um limitado raciocínio, esquecer que deveria buscar mais e mais conhecimento e tornar-se vítima da própria mente, que dá tantas saídas que te deixa sem opção.


Desejou esquecer da saudade, desejou esquecer de ter que esquecer das pessoas, desejou esquecer de que agora possuía um intelecto; Um falho intelecto que nunca colaborava como gostava, mas nunca o abandonava. O que, muitas vezes, era ingrato.


Sentiu raiva da mãe de seu amigo, sentiu raiva das citações baratas, da ignorância e da sapiência. Sentiu raiva de si, viu-se sem propósito e pensou na morte, até encará-la no espelho.


E a morte riu, com um doce sorriso. E ele foi consumido pelo medo e perdeu a reação, enquanto a morte sentia o seu queixo barbeado começar a umedecer. Olhou diretamente nos olhos, sorriu, acariciou pela última vez seu rosto aflito e disse placidamente: “Não”


Minutos depois, despiu-se e foi tomar um banho. Chovia muito. Ao ligar o chuveiro, viu-se refletido no vidro que parecia ter mais vida do que ele. Ouviu a chuva e lembrou de quando ainda podia fazer as coisas sem pensar nas consequências. Olhou para o ralo e viu toda a água escorrendo ali, como se agissem sem dar conta de nada, como ele sempre desejava depois de ter crescido.


Tentou esquecer a ilusão que acabara de criar, mas não conseguiu. Pensava que não conseguiria recomeçar a vida enquanto as lágrimas que ameaçavam chegar tentavam borrar seu olhar e se misturavam à água do chuveiro. Mordeu a boca, tentou secar inutilmente os olhos e novamente fixou o olhar no ralo. Parou, e então chorou de verdade.

Janeiro de 2007
Publicado em Abril de 2007 na revista Ponto

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Poetria #10 - Pão e Padaria

pão e padaria
pão e padaria
pão e padaria não é uma poetria
poetria é pão, mas não padaria
padaria é alegria
na alegria há alergia
e alergia é leito

na poetria, tem leito em padaria
pão e padaria, poetria

Abril de 2007
para a revista Ponto

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Duas Vidas


oscila-se demais entre o ódio e a compaixao. puta merda, como estou amável esses dias. sim, muito amável. até demais. eu queria estar menos amável, porque eu preciso de muito ódio no meu peito pra me rebelar contra algo. tudo ainda está confortável e bonito demais. isso tá errado, tá errado de verdade…

o telefone tocou. ao atender, ele se sentiu mais aliviado. era ela, e bem o que ele queria era realmente poder debater sobre seu dilema com ela.

nada nessa porra faz sentido. faz menos sentido ainda tentar entender algo disso tudo. eu desisto. parei. nao tem porque fazer isso, sendo que nao vai dar em nada. pelo menos pra mim, a história acaba aqui. nao vou fazer bosta nenhuma, nem pra dar cabo da minha vida eu presto. e isso tambem pouco me interessa no momento. eu nao to afim de me drogar, de trepar, de ouvir música, de fazer música, de ver filme, de fazer filme, ler, conversar, cagar, nada. eu to afim de me metamorfosear num inseto horripilante e nojenta à lá kafka ou entao ser alguem amorfo e inerente às questões externas. eu nao vou querer isso pros meus filhos…

- filhos?

é. terei filhos

- mesmo?

porra, eu quero. mas ninguem mais quer. deve ser legal cuidar dos seus filhos. mas na minha idéia eles seriam legais. posso ter filhos insanos, vai saber. nao ia valer a pena… pra eles

- sim… pra eles… mas, escuta aqui, por que voce tá me dizendo tudo isso?

ah… eu quis….fiz mal?

- nem um pouco… foi ótimo

sei… eu gosto muito de você, sabia… eu queria tar mais perto nesses momentos. eles fazem muita falta.

- é mesmo. fazem falta. você faz falta

ele desligou o telefone.

queria ficar sem pensar nisso até a próxima vida, talvez. as coisas andam meio sem graça, sabe… escreveu na sua caderneta.

fechou, jogou a caneta em qualquer canto e começou a pensar no que poderia fazer de útil no evento que iria cobrir no sábado. o improviso pode tomar conta de tudo, se já nao tomou.

o espelho continuou quebrado, mostrando nosso grande amigo dividido entre minúsculos pedaços de gente.

Texto integral feito no final de 2006 e publicado em 2007 para a revista Ponto. Sem revisões nem correções.

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eu tu eu

o homem vil
de índole duvidosa
aquele que usa outro para dizer
“eu sei o que fazer”
esconde-se

corta as entranhas
liberta-te do que nao és
do que nenhum homem
nunca foi

Abril 2007
para a revista Ponto

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AlgoAlémDaLetra

meu nobre irmão
não chores pelas cores espalhadas
não se acabam as lágrimas de imediato
não se inicia nenhum caos
premeditado

Abril de 2007
para a revista Ponto

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os ninguéns e a apoteose

os novos anónimos

têm família
têm lar
alguns amigos, alguns amores.

gostam da solidão
- mas não a desejam, na verdade

quando escrevem, repelem
quando cantam, desandam
quando amam, abandonam

são os boêmios sem talento, académicos, ridículos, todos
Alguns reclamam do agouro deles próprios.
e tornar-se mais um entre uns é temor real, perene
ser esquecido e omisso entre os grandes de seu tempo e de outros.

estar só é força, mas também é loucura.
continuaremos nas sombras e com a grandiloqüente alcunha de Novos Anónimos.

Pois queremos a memória dos tempos de agora e de outrora. Como seremos lembrados?

Este nome marca o batismo da neo-frustração de um novo século. Tudo somos e todos fomos.
Sou mais um nenhum.

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programa cearense pôs roqueiros e forrozeiros pra debater. taí essa coisa bela

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Na Natureza Selvagem
Into the Wild

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Um pulinho lá no meio da madrugada, sem combinar nada, não faz mal a ninguém

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Resistir

Com o tempo passei a questionar meu propósito aqui. Não me espanta, já que cedo ou tarde todo ser humano se pergunta o que faz ou o que deverá fazer nestes planos. E concluí (não sem ajuda) que meu propósito aqui é resistir. Apenas isso, resistir. Artisticamente não acredito que farei algo reconhecido por todos. Não me parece que atingirei nenhum tipo de sucesso pessoal com nada, não alcançarei altos degraus. Sou um anônimo que perdeu e o tempo de vida útil das grandes inspirações que sempre incendeiam a mente das pessoas, e se perdeu em seguida. Devo ter algum talento adormecido, e assim ele ficará por enquanto, não contra a minha vontade. Resistir, a tudo; Família, capitalismo, mulheres e amores, sociedade, política, amigos, ignorância, frustrações, à vida. Resistir a uma força silenciosa que parece ter nascido comigo e me sugere terminar com tudo isso. Duns tempos pra cá, passei a considerar prismas mais espiritualizados e talvez a morbidez que me inunda o pensamento desde moleque seja algo que eu venha trazendo de outros lugares e vivências que não esta, e por ter sido mais tolo do que hoje -quem sabe-, ter dado cabo da minha vida, estou hoje aqui para resistir e, dessa vez, acertar.

Sabiamente, a vida me fez enxergar o belo em coisas simples. Deu-me ferramentas para atingir este objetivo. Vejo-me cercado de amigos esclarecidos, iluminados e alguns imbecis, que me atentam aos limites da estupidez. Vejo-me partilhando do amor, do corpo e personalidade de mulheres incríveis. Tenho a poesia, os bons filmes, a bebida, o cigarro, livros, o vento no rosto, o elogio, o abraço, o calor, o riso, o esporte, as viagens, as estradas, a diversão. Tudo isso, toda essa vida, todo esse sedativo para não enjoarmos no meio do caminho e cogitar uma desistência. É a vida sendo o remédio contra os dissabores dela mesma, e me fazendo sonhar.

E o que é o sonhar? É a prévia de tudo que você pode ser. É a prévia da vida na literatura, a prévia do grande e inabalável amor, a prévia do cinema, da música, dos amigos, do talento, da violência. Tudo pela metade ou menos que isso, uma fatia irrisória do bolo.

Enquanto isso, vamos resistindo.

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